segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Catálogo Geral de Sementes de Flora autóctone - 2017-2018


Setembro é para nós o início  do Tempo de Semear e, como tal, a altura indicada para publicar aquele que será sempre o nosso catálogo mais importante: O Catálogo Geral de Sementes autóctones. Um catálogo que editamos pela 5ª vez e que na prática sintetiza um ano de trabalho intenso com um objectivo em em mente: O de disponibilizar a todos os que o pretendam, sementes do maior número possível de espécies autóctones que ocorrem no nosso país.

Germinar sementes é a melhor maneira de ter por perto as espécies silvestres que, seja qual for a razão que nos mover, quisermos ter por perto. E se é verdade que no nosso país não temos grande tradição de jardinagem, também é verdade que são cada vez mais aqueles que consideram a flora silvestre aquela que mais qualidades oferece se pretendermos ter jardins únicos, sustentáveis e sofisticados.

É evidentemente um mercado de hiper-nicho mas que por ser tão pequeno encerra em si toda a esperança do mundo: É que, qualquer que seja a perspectiva, só pode crescer! Como não nos cansamos de repetir, germinar sementes está longe de ser uma ciência esotérica e qualquer um, desde que munido de vontade, o poderá fazer.

O presente catálogo contém sementes de cerca de 371 espécies da nossa flora. Mais 31 que na edição do ano passado e que nos aproxima do número que já há  alguns anos temos em mente:  isto é, os 10% da nossa flora que, no mínimo, têm relevância ornamental. 

O catálogo não tem qualquer pretensão cientifica e organiza de forma simples as espécies pelos seus nomes científicos em categorias que são facilmente apreendidas pela maioria das pessoas que se interessam pela nossa flora.  e que a partir de agora Nesta edição é constituído pelos seguintes capítulos: 

  • Árvores - 42 espécies, tendo sido adicionadas as espécies de Quercus mais relevantes
  • Arbustos e sub-arbustos - 70 espécies, das quais destacamos novas espécies de Ericas e Thymus e a muito ornamental Cornus sanguinea
  • Trepadeiras - 13 espécies - mais uma espécie: Clematis campaniflora
  • Herbáceas - 205 espécies - adicionadas mais 11 espécies, destacando-se as Cerinthe major (Chupa-mel), Dianthus broteroi (cravinas-bravas) e Lysimachia vulgaris (Grande Lisimaquia)
  • Gramíneas - 25 espécies - mais uma espécie: Typha domingensis
  • Alhos e bolbos - 16 espécies.
Sempre que possível acrescentámos ainda o nome vulgar pelo qual a espécie é conhecida. No catálogo deste ano distinguimos também as espécies que além de ornamentais são consideradas como aromáticas, medicinais ou utilizáveis na nossa alimentação. Pelas diferentes categorias podem encontrar-se cerca de 40 dessas espécies, das quais destacamos a Valeriana, a Betónica e a Malva silvestre para dar apenas alguns exemplos.

Terminamos por fim e como já vem sendo nosso hábito com duas referências da maior importância. A primeira, de agradecimento a todos aqueles que nos têm ajudado a trazer á luz do dia este projecto e que das mais variadas formas ajudaram a consolidar este catálogo geral. A segunda, de apelo ao feed-back que qualquer um considere relevante enviar-nos. Todos os comentários, sugestões e criticas, são bem vindos. E essenciais para nós.



quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Tempo de semear e recomeçar



Se no último post partilhávamos o que para nós é, sem qualquer dúvida, o que não devíamos estar a fazer - e que na prática é transformar um país que, ao que nos dizem, já foi um jardim, num triste eucaliptal à beira-mar plantado, este será totalmente focado no seu oposto e no enorme espaço que sempre continua a existir para todos os que não pretendem entregar-se ao desalento.

Evidentemente a acção individual não resolverá estruturalmente problemas que carecem de decisões de planeamento do território em maior escala, mas pode fazer toda a diferença. E ainda mais se forem somadas muitas pequenas acções.

O "Homem que plantava árvores", conto de Jean Giono, que partilhámos nesta mesma página no início deste ano de 2017, AQUI,  tem esse potencial de inspiração e esperança que pode preencher qualquer um de nós.

Como escrevíamos na altura " o que é notável e inspirador neste conto de Jean Giono ( 1895-1970) são os diferentes níveis de leitura que ele possibilita. Descrevendo a acção de um pastor solitário que sozinho criou um novo bosque, fervilhante de vida, o que por si só é uma obra maior, o autor remete-nos subtilmente para as infinitas possibilidades da condição humana e que cada um de nós tem, por mais adverso que seja o contexto: O de recomeçar e persistir com esperança na mudança que queremos para cada um de nós e em nosso redor. 

É uma mensagem que se pode ler em todos os momentos do ano, mas que ganha ainda mais relevância nos momentos de recomeço, pelo que não nos cansamos de sugererir  o seu visionamento ou a leitura do livro.

É que Setembro, estando nós hoje a apenas 15 dias do equinócio de Outono, marca o início de um novo ciclo da vida no hemisfério Norte. Muito mais que 1 de Janeiro - o inicio do nosso calendário romano, hoje generalizado no mundo de cultura ocidental, é com o Outono que realmente há a oportunidade de recomeçar, semeando e colocando na terra o que queremos ver crescer e florir na Primavera/Verão de 2018.

Perspectivar o tempo de maneira circular, como faziam os nossos ancestrais pagãos, traz inúmeras vantagens sendo que a maior é mesmo liberta-nos da perspectiva linear dos "crescimentos constantes" a que a sociedade actual considera normal exigir e que não têm qualquer paralelo na Natureza que nos rodeia e da qual fazemos parte. Daí que, se há um regresso às aulas dos mais novos, também pode e deve haver um regresso à terra, ao jardim, à horta, ao bosque ou à floresta de qualquer um que não se resigne e queira recomeçar semeando.

Que o conto de Jean Giono possa inspirar mais alguns dos que nos seguem em novos recomeços, são os nossos votos!



quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A triste e insustentável eucaliptização do Litoral

Agosto de 2017 - margens da Lagoa de Óbidos. O novo eucaliptal,em baixo, contíguo ao bosque mediterrânico, em cima, foi igualmente eaté há bem pouco tempo um frondoso bosque .


Depois de alguns dias na costa vicentina e de regresso ao trabalho, partilhamos hoje, último dia do mês de Agosto, um post sobre um dos temas centrais que marcam irremediavelmente  a actualidade tal foi a violência dos incêndios que em 2 meses reduziram a cinzas vastas áreas do centro do país.

Fazêmo-lo neste último dia de Agosto, que  já tem cheiro de Outono, porque gostaríamos de reservar Setembro para aquilo que ele tem de melhor: preparar a nova época de sementeiras que se aproxima: Outubro e Novembro são os meses em que se decide o que se quer ver ver florir na Primavera de 2018 e para isso contamos acrescentar mais espécies aos nossos catálogos e apresentar novas ideias para quem quiser que este seja, aqui e agora, o momento de semear flora autóctone. Na horta, na varanda, no quintal, no jardim ou, porque não, no bosque que um dia se queira legar.

Porém, à parte os vitais e essenciais aspectos comerciais deste projecto - uma nano-empresa, diríamos, vitais para a sua sobrevivência económica, há questões centrais de cidadania às quais, mesmo visando nós a rentabilidade e o lucro, é impossível ficar indiferente.

E a questão central para nós, como já referimos em momentos anteriores, prende-se com a imperiosa urgência em conseguirmos, enquanto povo, implementarmos politicas de ordenamento florestal e territorial consistentes e com uma visão de futuro sustentável. Não pretendemos esgrimir argumentos - são diversos os especialistas, bem mais capazes do que nós, que nos últimos meses têm apontado as soluções. As quais, de forma alguma, estão acolhidas na reforma florestal, recentemente aprovada e sob-pressão, para descargo de consciências de alguns.

Dessas medidas agora aprovadas, que não conhecemos em profundidade, há todavia um aspecto que, pelo que temos lido nos jornais, nos deixa no mínimo perplexos: A diminuição da área de eucalipto das regiões agora ardidas terá por contrapartida o licenciamento de novas plantações, em progressiva menor área, no litoral do país.

Não percebendo nós muito bem como é que tal será implementado e fiscalizado e não tendo bem presente onde acaba o litoral de um pais com o máximo de 200 Km de largura, não deixa de ser muito estranho o rumo traçado.

Para começar porque não se percebe como serão recuperados os solos já esgotados do interior. Quem irá financiar essa recuperação? Como se faz? Depois porque o dito litoral está já hoje hiper-eucaliptado. Monchique, Lousã, Caramulo, Minho e por ai acima até à Corunha já foram entregues aos métodos associados à espécie. Significará que se irá licenciar a eucaliptização partes do litoral Alentejano (ainda mais)?) da região Oeste(ainda mais)? E como se fará a atribuição desse jackpot que é hoje poder plantar eucaliptos? Todos os proprietários poderão plantar ou só alguns? E se forem só alguns, de que forma serão ressarcidos os restantes que não acederem a essa lotaria???

Será a ideia substituir o Pinhal litoral por um Eucaliptal litoral à semelhança do que foi promovido no Pinhal Interior? `Será desanexar, com a facilidade que todos nós sabemos ser desporto nacional, solos agrícolas das bacias do Lis, do Baixo Mondego e do Baixo Vouga, onde a produtividade ainda é mais estonteante? Não sabemos e desconfiamos que ninguém saiba.

Na região Oeste em particular, onde estamos sedeados e que conhecemos bem, o eucalipto já avançou pelas areias litorais substituindo o pinheiro em muitos povoamentos a norte da Nazaré e até às matas nacionais. Entre Caldas-da-Rainha e Torres Vedras sucedem-se os novos povoamentos os quais  até nas margens da lagoa de Óbidos - um ecossistema que deveria ser reserva natural, no qual se gastam milhões de Euros em dragagens de desassoreamento, outrora povoada de fulgurantes bosques mediterrânicos - se plantam eucaliptos à pressa em pleno mês de Agosto, tal qual como noutras zonas de Leiria conforme relatado pela imprensa local (AQUI), procurando salvaguardar as futuras restrições da lei.

As imagens acima, das margens de um dos braços da Lagoa de Óbidos, dispensam quaisquer descrições tão evidentes são as diferenças de beleza, biodiversidade e respeito pelo solo. A manhosa técnica de arrotear tudo e qualquer arbusto para que só os eucaliptos vinguem, destruindo irremediavelmente a estrutura do solo e para que se a comunicação social exiba provas de que os eucaliptais são limpos pelos zelosos proprietários e logo ardem menos (pudera !) são suficientemente explicitas do que é que está em questão.

A ser executado é para nós óbvio que este é um caminho "mais do mesmo" e que  não acautela uma gestão estratégica do território. Que no futuro acarretará aos vindouros pesadas facturas.

Se na nossa opinião a monocultura de eucalipto deveria ser desde já fortemente limitada, admitimos que não é viável acabar com ela no imediato (embora nos pareça também óbvio que isso acabará por acontecer um dia, seja por obsolescência seja pelas alterações climáticas. E esse é um cenário sobre o qual deveríamos estar a pensar: o que fazer a um imenso território que daqui a algumas décadas vai estar ecologicamente destruído e sem qualquer proveito económico).

Nesta perspectiva, sendo insustentável que todo o litoral seja um imenso eucaliptal, resulta claro que, por uma questão de igualdade de condições de exercício dos proprietários florestais, a cultura do eucalipto só pode ser possível dentro de regras bem definidas e claras que não excluam povoamentos de outras espécies que assegurem uma função ecológica.

Fazer o que nos últimos 100 anos não fizemos, será complexo e demorado. Mas não será por falta de propostas em cima da mesa que não se fará o que tem de ser feito. Das muitas propostas, destacamos duas que nos parecem urgentes e de elementar bom senso:

A constituição de entidades responsáveis por áreas territoriais que, com escala, permitam uma floresta ordenada e com um mosaico de diferentes povoamentos, como defendido por Pedro Bingre do Amaral, é, também no litoral, uma evolução para qual deveremos caminhar o quanto antes. 

Encontrar formas de remuneramos colectivamente os serviços de ecossistema prestados por uma floresta diversificada e bem ordenada , desviando o que se gasta hoje, por exemplo, no combate aos incêndios em acções de prevenção e ordenamento, como defende o Arquitecto Paisagista Henrique Pereira do Santos, parece-nos igualmente outra proposta muito razoável e que permitirá suprir uma falha onde o livre-mercado-iniciativa não funciona e produz resultados que prejudicam a nossa sociedade no seu todo. 

Outras haverá, em diferentes vertentes, desde mentais, jurídicas e operacionais, mas sem estas, ou outras similares com igual alcance, que proporcionem uma efectiva administração do território com a escala necessária, dificilmente estaremos a caminhar no bom sentido.



sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Floresta Comum - Há sete anos a criar bosques



O Projecto Floresta-Comum, liderado pela Quercus em parceria com o ICNF e a UTAD, dedica-se desde 2010 a criar bosques autóctones. Desde o seu início já foram plantadas perto de 650.000 árvores de 60 espécies nativas diferentes em cerca de 168 concelhos do nosso país.

A nova fase de candidaturas a plantas do projecto Floresta Comum está aberta desde 28 de Julho e prolonga-se até 29 de Setembro, podendo  candidatar-se as autarquias ou outras entidades públicas bem comos órgãos gestores de baldios. As plantas estarão disponíveis para a próxima época de (re)arborização, de novembro de 2017 a fevereiro de 2018.

Sabendo nós que muitas autarquias são cada vez mais sensíveis ás iniciativas da dita sociedade civil esta é uma excelente oportunidade para que grupos de cidadãos promovam localmente a criação de espaços mais bio-diversos.
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Será uma gota no imenso mar da dita "floresta" de produção!?! Muito possivelmente. Mas há mares que se fazem de muitas gotas!

Mais informações sobre a fase de candidaturas AQUI.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Flores de Verão - Grande Lisimaquia e outras sugestões


Um dos desafios quando se jardina com flora autóctone é o de como florir o jardim numa estação em que há menos espécies em flor e os tons mais secos e castanhos tomam conta do que nos rodeia. Aprender a gostar de tons castanhos e aceitar que nas latitudes mediterrânicas esta é a época de maior stress para a flora, é cada vez mais importante e meio caminho andado para ter jardins mais ecológicos e sustentáveis.

Claro que nem todos gostam e as buganvilias e as  lantanas, exóticas amplamente disseminadas no nosso país , são a salvação de quem quer ter um Agosto sempre florido. Não temos nada contra, e se não se abusar nos arranjos multi-color, qualquer uma fica bem como apontamento.

Todavia, e por incrível que pareça a muitos, a verdade é que a nossa flora também tem espécies a florir com exuberância em Julho e Agosto. São é pouco conhecidas, apesar de estarem à vista de todos nós se formos observando a paisagem com olhos de ver.

Uma delas e das nossas preferidas é a Salgueirinha, Lythrum salicaria, sobre a qual escrevemos AQUI há cerca de dois anos. A sua floração prolongada e abundante fazem dela uma planta essencial para quem pretender florir zonas encharcadas de lagos ou solos mais húmidos.

Porém a abundância de espécies com enorme potencial ornamental de que dispomos, especialmente adaptadas a solos húmidos, é tal que nos escusamos a indagar porque é que no nosso país ainda só estão confinadas aos sítios onde ocorrem naturalmente. 

A Grande-Lisimaquia, de amarelos intensos, Lysimachia vulgaris, será porventura a mais injustiçada. Mas as outras, na foto seguindo o sentido dos ponteiros do relógio, não o são menos: O Trevo-cervino (Eupatorium cannabinum), a Salgueirinha (já referida acima, Lythrum salicaria), os Malmequeres -bravos (Leucanthemum lacustre?) os Epilóbios (Epilobium hirsutum) e o Ruibarbo-dos-pobres (Thalictrum speciosissimum) são apenas mais 5 espécies que facilmente e sem grandes riscos nos atrevemos a sugerir a quem puder tê-las por perto! 

E, acreditem, não esgotam as possibilidades! Facilmente se juntam mais 10 especies igualmente ornamentais que ajudarão a garantir um Verão sempre florido sem ter de recorrer a espécies exóticas!

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sobral Interior

(vista da aldeia Ferrarias de S. Joao, Penela, onde os sobreiros travaram de forma bem evidente o incêndio de Junho)


Há pouco mais de um mês Pedrogão Grande; há 15 dias nos distritos da Guarda e Vila Real, hoje em Mação, Proença, Oleiros, Nisa, Vila Velha de Rodão. Só um chegaria para arrepiarmos caminho, mas, aparentemente, tudo indica que o país vai ter de continuar a arder por muitos e bons anos até que nós, ou outros que venham a seguir  nós, encarem o problema de frente e ponham mãos à obra que terá de ser feita.

E o que terá de ser feito, como em quase tudo o resto, depende mais de uma visão politica de longo (longuíssimo) prazo do que de estudos científicos parcelares, diplomas legislativos avulsos e entidades da administração publica desconectadas entre si.

Ora, na nossa perspectiva, só há uma visão digna do nome: Ousar de uma vez por todas revolucionar o ordenamento de amplas áreas do nosso território do centro do país e das suas extensões florestais.

Pedro Bingre do Amaral, professor da Escola Agrária de Coimbra, para nós um dos que de forma mais consistente tem reflectido nos problemas da nossa floresta, publicou no seu perfil de FB, AQUI, poucos dias após os incêndios de Pedrogão Grande, a sua leitura do que poderá ser a região agora fustigada pelos incêndios e que para alguns é ainda conhecida como Pinhal Interior. Nas suas palavras poderá ser um grande SOBRAL INTERIOR. Como escrevia: 

"O centro de Portugal pode vir a recobrir-se com dezenas de milhar de hectares de montado de sobro, assim haja vontade política e cívica para isso. As vantagens serão várias: é mais fácil debelar o fogo num montado do que numa floresta densa; o sobreiro recupera melhor após o incêndio que os eucaliptos e os pinheiros; a cortiça é um produto com boa saída nos mercados internacionais, havendo pouca concorrência de outros países; o montado é particularmente favorável à biodiversidade, à cinegética, à produção de cogumelos e espargos, e ao ecoturismo."

Poderá ser um sobral, um cercal, ou um carvalhal, ou um misto de tudo isso e onde até pinheiros e eucaliptos caberão certamente, mas, independentemente, dos contornos de como isso pode ser feito, essa é a única visão de futuro sustentado que esta região precisa.

Ao fim de dois mil anos a desflorestar e 100 a florestar erradamente, seria de Homem um povo assumir o desafio de cuidar da terra que o alimentou durante gerações. E abdicar de vez da mania de que estes pobres solos têm ainda a obrigação, em pleno séc. XXI, de gerar rentabilidades alucinadas, cuja fasquia é marcada de forma distorçida pela indústria da celulose. Rentabilidades que nunca, em momento algum da nossa historia, a floresta teve. 

É empresa para os próximos 100 anos, e como tal pressupõe um amplo consenso na nossa sociedade. A questão, como é evidente, está em saber se alguma vez a conseguiremos por em prática. Se temos a vontade, a energia, a liderança e os recursos para o efeito. 

Muitos dirão que tal é impossível de concretizar. Talvez. Mas sem sonho, sem visão e sem rasgo nunca nada que valesse a pena se fez. São inúmeros os exemplos de sociedades que caminharam para um colapso anunciado porque no seu seio não conseguiram mobilizar as mudanças estruturais que se impunham e estavam à vista de todos. E casos há em que todas as partes seguiram seguras para o abismo, com a desculpa de que estavam a executar na perfeição o papel que lhe estava determinado.

Para nós, e felizmente para muitos outros, esta é a visão que se impõe e para a qual deveríamos mobilizar os nossos recursos económicos, técnicos e científicos. Ao serviço de uma visão de futuro, que é essa a ordem natural das coisas! Pode nao ser agora, mas sê-lo-á de certeza absoluta um dia.

Nem que seja daqui a alguns anos, depois de a industria da celulose colapsar por obsolescência!


sexta-feira, 14 de julho de 2017

Edição Especial: Girassois de Verão!




Mas quem é que nunca se deixou maravilhar por um campo de girassois!?!? Em Portugal, sobretudo nos campos do Alentejo, é difícil não ficar deslumbrado com as extensões a perder de vista de girassois geometricamente perfilados com milhões de infloresçências a moverem-se de forma sincronizadas e perfeita em torno do Sol.

São uma das nossas imagens de marca  e estão indissociavelmente ligados às memórias de muitos dos nossos Verões. Daí que mesmo não sendo uma espécie nativa do nosso país é, como outras, uma espécie que já ganhou direitos de cidadania no nosso imaginário.

E não é por falta de outras plantas autóctones, que também florescem no Verão e que por aí existem debaixo dos nossos olhos, à espera de ser vistas! Mas esta espécie, originária do continente americano, e com tantas qualidades ao ponto de hoje ser uma importante cultura em todo o mundo, é demasiado emblemática para que não lhe prestemos a devida homenagem.

 Faz por isso todo o sentido termos uma edição especial de sementes de girassol! Num pacote com um design também ele especial, juntámos cerca de 50 sementes prontas a serem semeadas e a florir em qualquer varanda, terraço ou jardim. A variedade é de pequeno porte - cerca de um metro de altura e tem uma floração abundante e demorada! Acresce a isto que é de fácil germinação e, com alguns cuidados, cresce muito rapidamente!

A partir deste fim de semana e até ao fim do Verão estarão disponíveis apenas em algumas lojas parceiras das Sementes de Portugal: Na Vida Portuguesa em Lisboa e Porto; Na Casa da Bli, em Lagos,  na Casa das Portas, em Tavira e nas lojas Bairro Arte, de Porto e Lisboa.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Tempo de colher



À semelhança de anos anteriores o Verão é para nós a estação das colheitas por excelência e como tal uma das alturas de mais trabalho no ano. Daqui até Setembro a nossa principal preocupação será a de preparar a nova época de sementeiras que se iniciará nos fins de Setembro/inícios de Outubro.

Estamos a renovar os nossos stocks e é já certo que iremos acrescentar novas espécies, seja no nosso catálogo geral de sementes seja no nosso catálogo de pacotes que conta actualmente com 50 espécies mas que nós pretendemos fazer crescer até ás 60.

O Verão não é a melhor altura para semear, mas sendo o período de férias por excelência, é o tempo de descansar e de começar a pensar que sementes gostaríamos de germinar no próximo Outono. De Norte a Sul de Portugal as sementes das espécies mais emblemáticas da nossa flora estão disponíveis nas lojas de que mais gostamos no nosso país.

Por fim e sendo certo que os máximos de floração já ocorreram na Primavera, convém não ignorar que durante o Verão ainda há espécies autóctones em floração. Em menor número, é certo, mas de tonalidades inconfundíveis. Como os campos de azul-celeste de chicória, ou almeirão, que nos acompanha de meados de Junho até meados de Agosto, e que é uma das nossas preferidas como escrevemos AQUI.

Mas há mais espécies de encher o olho que nas próximas semanas iremos partilhar aqui. Até lá, boas férias, ou se preferirem, o mesmo é dizer, boas colheitas!


terça-feira, 20 de junho de 2017

Solstício de Verão 2017


Costumamos e gostamos de assinalar equinócios e solstícios. O de Verão, particularmente, por ser o início da estação que geralmente associamos aos dias longos e às férias. Por ser época de santos populares, festas e romarias. Para nós ainda, por ser a época de colheitas e por, apesar de ser a época mais seca, ainda se vislumbrarem aqui e ali muitas das flores silvestres às quais atribuímos valor, seja ele ornamental ou outro.

Este ano porém, o solstício, que ocorrerá esta madrugada pelas 5h24m, de acordo com o AOL, será marcado pelos muitos fogos que ainda lavram na região centro do país  e que, numa dimensão trágica inimaginável, conduziram à morte 64 pessoas.

Não poderá ser um solstício de celebração e será seguramente e para sempre um dos Verões de pior memória para nós. Lembrar os que perderam a vida em Pedrogão Grande este Verão será a imagem que nos vai acompanhar nos próximos 3 meses.

Mas se não há nada que os possa trazer de volta à vida, que a sua trágica morte possa motivar o sobressalto que todos nós, enquanto sociedade, lhes devemos para que tragédias idênticas não se repitam.

Um sobressalto que nos faça perceber de uma vez por todas que, longe de sermos os melhores dos melhores, falhamos muito e em muita coisa enquanto povo. E em toda a linha em matéria de ordenamento e gestão do nosso território, onde devemos competir nos últimos lugares da tabela com o Haiti ou a ilha da Páscoa.

Aqui chegados dispensamos-nos a juntar mais bitaites sobre o diagnóstico. Pelo menos desde 2003, ano em que ardeu Oleiros, que as causas profundas estão identificadas pelos mais diversos especialistas. O prof. Jorge Paiva, O  Arq. Ribeiro Teles, o Prof. Nuno Gomes da Silva, Luís Alves, Pedro Bingre do Amaral e tantos, tantos  outros,  já explicaram de forma detalhada que o nosso território não suporta as extensões de monoculturas de eucalipto e pinheiro que as fileiras industriais pretendem; Que a solução passa pela constituição de unidades de gestão minimamente dimensionadas que, dotadas de recursos e capacidade efectiva de acção, promovam povoamentos  mistos com outras espécies, nomeadamente autóctones; que, se necessário for, o Estado deverá expropriar amplas parcelas de território.

Embora nem tudo se possa assacar ao Estado - quantos de nós, que nos emocionamos no conforto dos nossos sofás, não tem uma parcela de terra ao abandono!? - É a este que, no conjunto das lideranças politicas e da administração pública, cabe a responsabilidade de gerir o território e os diferentes actores que nele se movimentam, nomeadamente: industrias, populações e autarquias.

E foi aí que o nosso Estado, lideres políticos eleitos+administração pública, central e local, falhou total e redondamente nos últimos 40 anos. Não são necessárias demissões deste governo em particular, porque todos os anteriores foram incompetentes. Mas também não podemos aceitar que hoje apenas se nos ofereçam de mão vazias, voz embargada, olhos húmidos e desorientados para daqui a menos de dois meses rejubilarem de alegria a abraçar despudoradamente turistas nas praias do Algarve.

Porém, quando morrem estupidamente 64 cidadãos, não é mais possível continuar a empurrar com a barriga e a assobiar para o lado. Nem insistir em fórmulas e estruturas que já provaram não serem capazes. O que precisamos de saber é tão simples como o que é que de novo se está disposto a fazer para repensar seriamente o ordenamento do território e da nossa floresta. Sem hipocrisias. Se for mais do mesmo dos últimos 15 anos, mais livros brancos, mais prós e contras da Fatima Campos Ferreira, para, depois, no fresquinho dos gabinetes de Lisboa, se concentrarem em mais medidas de apoio à produtividade da fileira de celulose e contratos milionários para o combate às chamas, o melhor será mesmo assumirem de uma vez por todas a sua incapacidade e que amplas áreas do país estão subtraídas à nossa soberania e concessionadas à lei da indústria mais forte.

E, se for esse o caso, se for impossível, se a República não tem nem o dinheiro nem a capacidade, a única coisa que nos restará fazer, se pretendemos manter ainda alguma dignidade, será então evacuar permanentemente as poucas populações que por lá ainda agonizam. Dar-lhe novas oportunidades de vida digna no litoral e, por misericórdia, evitar que morram carbonizadas.

E as televisões portuguesas que descubram outros espectáculos degradantes para entreter as massas. Nem imaginação, nem drones lhes faltam,  tantas são as vezes que por estes dias tanto nos têm lembrado até à náusea os filmes "Jogos da Fome",  provando que também aqui a realidade ultrapassa com muita facilidade e largamente a ficção.


domingo, 18 de junho de 2017

Homicídio por negligência


43 mortos até ao momento. Dezenas de feridos. O que aconteceu ontem no norte do Distrito de Leiria não necessita de condolências nem de afectos de compaixão dos nosso decisores políticos. Necessita isso sim de tomadas sérias de decisão que de uma vez por toda compreendam que sem gestão do território não será possível evitar esta e outras catástrofes vindouras.

Quem permitiu que todas aquelas serras, terras de carvalhos e castanheiros e de ribeiras fosse entregue ás monoculturas de eucaliptos e pinheiros, de ambos os lados de toda qualquer via de comunicação, num continuo de matéria altamente inflamável, é na realidade culpado por homicídio. Pode ser por negligência, pode ser por incúria e até nunca ser confrontado com isso, mas em consciência sabe que é isso que se trata!

E não venham os especialistas doutorados nos EUA dizer que tudo o que necessitamos é fazer uma sábia e inteligente gestão do fogo! Não caríssimos professores doutores. É necessário de uma vez por todas impor regras tão simples como: Em cada Km2 o limite afectável às monoculturas não pode ultrapassar os 20%. Ou, por cada eucalipto ou pinheiro plantado têm de estar identificados onde serão plantados 9 carvalhos ou outras folhosas.

Sem que isto se faça, é continuar a morrer. Uns assados, outros de vergonha!

terça-feira, 13 de junho de 2017

Plantas do Estio Algarvio

Plantas em flor no início do Verão Algarvio, Horta da Lapa- Algoz, Algarve

Há pouco mais de uma semana fizemos referência aos benefícios do clima atlântico que caracteriza a região do Porto e que lhe permite dispor de jardins e espaços verdes de causar alguma inveja.

Mas o facto é que a maior parte do país não goza de tanta chuva, enquadrando-se no que se convencionou chamar de clima mediterânico, com uma estação seca é severa e prolongada. E pretender ter aí os jardins que se vêm no Porto, ou em Inglaterra, é evidentemente, pouco aconselhado. Em vez de espaços de fruição o máximo que se consegue são sorvedouros de água.

O Algarve - essa região que bem vista com atenção é seguramente o segundo reino maravilhoso de que dispomos no nosso território, é a nossa região de clima de tipo mediterrânico por excelência: a uma semana do início oficial do Verão, há pelo menos 15 dias que ele na realidade já por aqui se instalou, com as searas já maduras e os serros a caminharem para a secura.

Porém, contrariamente ao que se possa pensar, há ainda muita cor que poderá inspirar outras jardinagens que se queiram libertar do "tem que ser assim" e pretendam construir  espaços mais consentâneos com as características do solo e clima da região. 

Nessa jardinagem, que acontecerá inexoravelmente, são muitas as espécies endógenas da flora Algarvia que se poderá escolher. Mas há quatro que serão de certeza incontornáveis: O tomilho-de-creta (Thymbra capitata), a perpétua-das-areias (Helichrysum stoechas), o fel-daTerra (Centaurium erythraea) e os suspiros-dos-montes (lomelosia simplex).

Quem achar que são outras as cores que os ocres do Algarve pedem, que se chegue à frente!


sexta-feira, 2 de junho de 2017

Serralves em Festa


Pelo menos em matéria de jardins e espaços verdes, sempre que se regressa a Portugal oriundos de Inglaterra é de todo recomendado que se faça um estágio de aclimatação antes de entrar na realidade do nosso dia-a-dia. Assim como que de uma câmara hiperbárica se tratasse, mas ao contrário, porque neste caso o objectivo é o de permitir que os olhos se habituem a "pressões atmosféricas" mais cruas.

E no caso do nosso país, o melhor sítio por onde se deve começar a submergir é pelo Porto. É um facto que a região tem um clima atlântico, mais próximo do das ilhas britânicas, mas também é verdade que a cidade tem sabido aproveitar o facto e é, de longe, a cidade portuguesa com melhores jardins e espaços verdes do nosso país.

Certo que sempre com muita coisa para melhorar, mas o que já existe é muito bom e  não envergonha ninguém. Pelo contrário, com Serralves à cabeça, o Porto tem já diversos espaços e iniciativas que o colocam no capítulo do que de bom pode e deve ser feito.

Serralves é para nós o JARDIM que temos em Portugal, com muito poucos a conseguirem ombrear com o seu desenho, dimensão e diversidade. Há sempre motivos para ir a Serralves e este fim-de-semana decorre um dos eventos que justificadamente mais pessoas atrai: Serrlaves em Festa, o mesmo é dizer 50 horas non-stop de exposições, espectáculos de música, dança, workshops e dezenas de eventos, conforme pode ser consultado no programa, AQUI.

Nós também lá iremos estar e é possível encontrar as nossas sementes na caixa-expositora disponível na loja do Museu de Serralves!

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Chelsea Flower Show 2017


O que é que um dos maiores eventos dedicado à jardinagem do mundo, realizado em Londres, tem a ver com um projecto focado na flora silvestre de Portugal? À primeira vista pouco terá em comum, porém, a ortodoxia nunca foi o nosso forte e ter tido a oportunidade de o visitar além de um privilégio é a janela que também gostaríamos de manter aberta de par em par.

Mas, mais do que um gosto, é um traço essencial para a identidade do que pretendemos fazer. Sendo insuspeitos sobre o muito que apreciamos no nosso país, o pior que nos podia acontecer seria cair no erro de pretender que nada de melhor existe fora de portas ! E numa altura em que o discurso vigente é o de nos convencer a todos de que somos incríveis e a um passo de tudo ser declarado património da humanidade, é de elementar higiene verificar o que afinal se faz la fora.

E FAZ SE MUITO!! Inglaterra, ou o Reino Unido se preferirmos, têm uma longa tradição em matéria de jardinagem. É um facto que o seu clima ajuda e também é um facto de que se trata de uma sociedade rica que tem recursos para dedicar ao tema. Mas só isso não explica a verdadeira obecessão que os ingleses têm com os seus jardins. Este povo persegue a Beleza e ama verdadeiramente a Natureza e de forma muito consistente há pelo menos 300 anos. Visitá-los não é motivo de inveja e apenas pode servir de inspiração!

O RHS Chelsea Flower Show 2017, que decorre esta semana no bairro de Chelsea, é indiscutivelmente um dos pontos altos para os amantes de jardins de todo o Mundo. Atrai centenas de milhares de visitantes e de profisisonais em busca do que de melhor se está a fazer neste momento nesta área. E não são só Flores o que se pode ver por lá. São dezenas de stands de tudo o que possamos imaginar como estando relacionado com a jardinagem: mobiliário de Jardim, casas especializadas em utensílios, iluminação, rega, pergolas, estufas, toda a espécie de artesanato em madeira e metal. São dezenas de ideias para que qualquer um possa fazer do seu jardim o paraíso merecido!

Se não é difícil ficar com surpreendido com a diversidade menos ainda é ficar boquiaberto com a verdadeira sofisticação que em matéria de arte para jardins se pode alcançar. São inúmeros os escultores, artistas plásticos e instaladores de trabalhos em pedra, metal e madeira, com identidades e técnicas muito diversificadas, de largas milhares de libras, que acrescentam o remate final de beleza que muitos estão dispostos a pagar.

Em matéria de flores e jardinagem propriamente dita, poderemos, de forma resumida, dizer que são duas as principais áreas de interesse: O grande pavilhão Central, onde viveiros especializados de todo o Reino Unido exibem o melhor da sua produção, e os diferentes jardins, instalados ao longo das últimas semanas e que "transplantam" para o espaço da exposição jardins completos. Este anos eram 22 em diferentes categorias a concurso.


Visitar o Pavilhão central não é definitivamente para cardíacos! O nível de sofisticação que muitos produtores alcançam - e existem especialistas em todos os géneros usualmente utilizados em jardinagem: desde orquídeas, rosas, tulipas, dálias, vegetação aquatica, acers, peónias, entre muitos outros, é do melhor que se alcançou até ao momento. É o reino dasovas variedades apuradas, cultivares e híbridos que competem pelas cores e formas mais inesperadas. Não é naturalmente a nossa áreas preferida, mas não deixa de ser interessante observar a inexistência de limites nesta matéria. Um aspecto interessante é observar como alguns espécies silvestres de todo o mundo estão a captar um interesse crescente.  compreensível regresso ao "simples" depois dos excessos.

Por fim, a secção que afinal mais motivou a nossa visita a este Chelsea Flower Show. Os jardins instalados ao longo das últimas semanas por equipas de dezenas de pessoas que tiveram a missão de garantir que tudo estaria apresentável (vivo!) nesta semana.

Neste particular a sofisticação é igualmente grande. São em regra projectos apenas exequíveis com o patrocínio de grandes empresas que dispensam orçamentos generosos para que designers de jardins e arquitectos paisagistas concebam espaços inspiradores das novas tendências em matéria de jardinagem.  Sem nos demoraremos nos 22 jardins em concurso,  é visível a influência que a flora silvestre e os diferentes ecossistemas têm no desenho de jardins que se querem cada vem mais sustentáveis, povoados de outras formas de vida e adaptados às condições de solo e clima de cada lugar .  Esta tendência esta bem patente nos jardins de Yorkshire ou do Wellington´s college, mas os holofotes deste ano foram todos para um jardim de flora mediterrânica.


Desenhado pelo designer James Basson, o melhor jardim do certame replica uma antiga pedreira de calcário, abandonada, de Malta e lembra a extrema vulnerabilidade dos ecossistemas daquela ilha. A flora utilizada, toda nativa, não nos poderia fazer mais lembrar a nossa: Desde eufórbias, centranthus, echiums, ferulas, stipas giganteas, alfarrobeiras, entre muitas outros géneros que também ocorrem no nosso país!

E se existiam dúvidas sobre o que faríamos no melhor evento de jardinagem do mundo, o prémio deste ano dissipa-as todas, confirmando que, na dúvida, o melhor é, sempre foi e sempre será... ter as janelas abertas!

terça-feira, 23 de maio de 2017

Regressar a casa em Londres


Se em Paris, no meio de tanta abundância de jardins e espaços verdes, não temos duvidas em sugerir o Jardin Alpin como sendo o nosso preferido, em Londres o problema do excesso de oferta também se resolve facilmente: a pérola dos jardins de Londres, de visita obrigatória,  é o Chelsea Phisic Garden.

Na realidade mais do que um jardim -  é o segundo jardim botânico mais antigo de Inglaterra, a seguir ao de Oxford, é, de certa forma,  "o espaço fundador" de toda a tradição britânica em matéria de botânica e jardinagem desde que em 1673 a sociedade dos boticários/farmaçêuticos de Londres estabeleceu um jardim inteiramente dedicado ao estudo das propriedades medicinais das plantas.

Sendo reconhecida a importância que teve na disseminação do estudo da botânica por toda a Europa - a titulo de referência, Lineu, considerado o pai da botânica moderna, passou por lá no início da sua carreira, a sua consistente actividade ao longo destes 350 anos bem como as suas colecções de plantas, organizadas num espaço que não chega a um hectare e meio, continuam a fazer deste jardim um dos sítios incontornáveis de Londres.

Não resistimos, porém, a partilhar o que para nós é um motivo adicional para o visitar sempre que temos a oportunidade de vir a Londres. De certa forma, o nosso interesse pela flora autóctone portuguesa foi aqui amplamente estimulado quando o visitámos a primeira vez há cerca de 15 anos. 

Na altura, como ainda hoje - embora a qualidade das fotos não o facilite, são incontáveis as espécies da flora silvestre do nosso país que aqui têm lugares de destaque: eufórbias, centranthus, iberis, Echium(s) e iris, entre muitos outros géneros. Para não referir as espécies medicinais e aromáticas mais óbvias como o alecrim, a borragem, o cardo-mariano ou o tomilho.

Daí que, numa das muitas ironias proporcionadas por essa mania deste país em ter as fronteiras abertas, o nosso projecto pode considerar-se como beneficiário directo dessa longa tradição de disseminação de conhecimento empreendida pelo  Chelsea Phisic Garden desde 1673. Ou, dito de outra forma, para nós visitá-lo é, e será sempre, uma das muitas formas de regressarmos a casa!

sábado, 20 de maio de 2017

Retemperar a auto-estima em Paris



Estes são dias em que, podendo, se deve ficar em Portugal. Caso contrário o mais certo é que não só se percam muito rapidamente os 20 cm ganhos à conta dos irmão Sobral, como a constatar que ainda nos faltam outros tantos para igualar o que de muito bom se faz noutros sítios.

É verdade que ninguém nos disse a que altura se adicionavam os tais centímetros, mas, independentemente das razões que nos levam à esquizofrenia de muito rapidamente passarmos de bestas a bestiais, sempre por obras e graças terceiras - as quais estão estudadas  e são há vários séculos conhecidas, o facto é que não há nada como respirar noutras paragens para perceber que podemos sempre ambicionar  melhor. E não será preciso inventar nada, basta copiar ou deixarmos-nos inspirar para mais tarde podermos recriar à nossa maneira.

Paris, evidentemente, dispensa qualquer apresentação e mesmo no que é particular da jardinagem e dos espaços verdes é amplamente conhecido o muito que a cidade tem para oferecer. Aos jardins formais da escola francesa de Le Notre, passando por uma rede de novos jardins em todos os quadrantes da cidade destinados ao usufruto dos cidadãos até  aos diferentes pólos do jardim botânico da Paris, que albergam mais de 15.000 espécies diferentes e diversos jardins privados dignos de visita, o difícil é sempre o que escolher para visitar.

E como a fartura é muita e de boa qualidade não haverá grandes riscos de desapontamento ou tempo perdido. Porém, a ter que partilhar uma sugestão a nossa preferência vai inquestionavelmente para o Jardin des Plantes, integrado no museu de historia natural de Paris.

Fundado em 1635 por Luis XIII que ali criou o primeiro jardim real das plantas medicinais, foi crescendo ao longo dos tempos e alberga hoje pelo menos dois espaços que são de visita obrigatória: O primeiro é a Escola Botânica, onde centenas de plantas, não só da Europa mas também de outros climas temperados, estão organizadas de forma cientifica por classes ou grandes famílias. O segundo, ao lado do primeiro, é o jardim Alpino que congrega em pouco mais de 4000 metros quadrados, mais de 2000 plantas oriundas de regiões montanhosas como os Alpes, mas também Pirenéus, Atlas, Urais e até Himalaias. Em comum têm o facto de serem provenientes de climas hostis e com pouca água e de não usarem essa dificuldade para se relaxarem em matéria de beleza.

Qualquer um dos espaços justifica por si só diversos textos, mas a ideia deste, mais do que descrever à exaustão o que lá se pode ver, é mesmo o de estimular a sua visita, a qual seguramente preencherá pelo menos uma manhã bem passada!

No caso do Jardim Alpino, que tem a sua actual forma desde 1930, e que para nós é a jóia da coroa, além da inequívoca beleza, interessa observar a incrível variedade de espécies que no mesmo género pode ocorrer ao longo de toda a Europa ou, por exemplo, de todo o mediterrâneo. Géneros que possuem espécies endémicas em Portugal e outras completamente diferentes no outro extremo geográfico. 

Como toda a gente sabe por estes dias, as espécies que ocorrem em Portugal são muito boas, as melhores das melhores. Mas há outros verbascos, outras abróteas, outros hipericões e outros cistus. Salvias, papoilas e alhos estranhos. Gerânios e giestas de outros portes. Cores e formas completamente diferentes num festival de diversidade que faz deste pequeno jardim, de pouco mais de 4000 metros quadrados, no centro de Paris, possivelmente o jardim mais cosmopolita da cidade.

Um cosmopolitismo que em 1930 deve ter sido de um grande atrevimento. Certamente só possível por ainda não se terem descoberto maquinas de inventariação genética: Misturar no mesmo espaço espécies que evoluíram separadamente, correndo severos riscos de promover  uma insuportável miscigenação das mesmas, perdendo purezas genéticas preciosas, é algo que ainda hoje em dia nos deixa, a nós e a muita gente, os cabelos em pé e à beira de justificada ansiedade!




quarta-feira, 17 de maio de 2017

Tempo de celebrar e usufruir!


Qualquer mês de Maio é, por si só, um tempo de celebração! O primeiro mês do calendário celta tem sempre essa virtuosidade e por muito que nos tenhamos urbanizado, é da maior vantagem dar conta da natureza cíclica de tudo o que nos rodeia. Há um tempo para semear, outro para descansar, mas também para celebrar com gratidão a generosidade da vida de que temos o privilégio de fazer parte.

O dia das Maias é um dia de celebração, como o é o dia da Espiga que assinalámos antecipadamente no dia 7 deste mês na Herdade do Freixo do Meio. 

Importa-nos também constatar que não há só uma Primavera e que desde que ela se iniciou há quase dois meses, todos os dias tivemos uma primavera diferente. A de meados de Maio não é a mesma da meados de Março. Os verde-limão das primeiras folhas forma dando lugar a outras cores e formas de vida num crescendo de exuberância que invade os nossos olhos. É a mesma estação? É. Mas que se foi  transformando todos os dias mais um bocadinho conduzindo-nos suavemente ao tempo de usufruto e de colheita que marca o Verão.

E esta é a razão essencial para assinalar com novas cores os próximos meses que temos pela frente. Não serão tempos de semear  e até que voltem a estar reunidas as condições, lá para o fim de Setembro, daqui a 3 meses, procuraremos sobretudo partilhar as mil e uma maneiras de como é possível usufruir estes meses  preparando outros.

Claro que referenciar isto quase que chega a ser excessivo para quem já tanto celebrou com a vitória na Eurovisão, um privilégio não aconselhado a cardíacos. Porém, sabemos de experiência, que não há (felizmente) euforias eternas e até agora se aconselha algum tempero. "Sermos bons e os melhores dos melhores" sabe bem e reforça-nos a auto-estima mas não nos pode fazer ignorar que fora de portas também há muita coisa boa e ao nível dos melhores dos melhores. È o que tencionamos partilhar ao longo dos próximos dias: O que fora de Portugal também é MUITO BOM e que nos pode  (deve) inspirar!

domingo, 14 de maio de 2017

Ensinar a Europa a sonhar




Em 1990, há cerca de 27 anos!,  perguntavam a Agostinho da Silva o que é que um país como o nosso, pobre e longínquo do centro do continente, poderia dar à Europa e ao Mundo. A angústia era compreensível. Preocupava-nos um futuro já sem um império de 500 anos, tínhamos acabado de aderir à "Europa", casa de onde nunca tínhamos saído, mas que uma ditadura psicopata não só não deixou entrar como insistia em convencer-nos de que nem tão pouco lhe pertenceríamos.

Nada que atrapalhasse Agostinho da Silva. Achava não só muito bem que tivéssemos entrado na CEE -  os portugueses precisavam de redescobrir a Europa, mas sobretudo a Europa precisava de descobrir Portugal! O que lhes tínhamos para dar, à Europa e ao Mundo, era muito mais importante do que imaginávamos! Nós PRECISÁVAMOS de os ensinar a sonhar!

Isto dito assim em 1990 era pura patetice! Ontem, os irmãos Sobral, cumpriram-se e cumpriram-nos. E enquanto celebramos numa justificada e merecida euforia sem precedentes, Agostinho da Silva, a existir, estará certamente a sorrir.

O que aconteceu ontem não é explicável pela física convencional. Poder-se-á pensar que foi uma enorme colheita que coroou 50 anos de participações de dezenas de intérpretes, poetas e compositores que nunca cederam e que cantaram sempre em Português, alguns dos nossos mais belos poemas, Simone de Oliveira, Paulo de Carvalho, Fernando Tordo, Carlos Mendes, Ary dos Santos, Carlos Paião, Sara Tavares e tantos tantos outros que semearam, semearam e voltaram a semear para que ontem pudéssemos, ao fim de 49 anos, colher frutos.

Porém, trazer o caneco não foi só uma bela colheita que resgatou todas as nossas participações anteriores,  foi, como dizíamos no nosso último post, semear e semear em larga escala! Mas ainda conseguiu ser mais do que isso: Foi ensinar-nos a sonhar!

E quando se semeia, colhe e sonha desta maneira, tem de se entrar no domínio da física quântica para começar a descortinar um pouco o que Agostinho da Silva nos queria dizer há 30 anos!


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Semear em larga escala


Há mil e uma maneiras de semear, à mão, de avião, com máquinas, muito depressa ou mais devagar, assim e assado.... Mas o que os irmãos Sobral fizeram terça-feira e vão voltar a fazer amanhã em Kiev é simplesmente uma das maiores sementeiras em larga escala que se pode ambicionar fazer em Português! Isto sim é semear com a mais avançada tecnologia. Ao seu lado, as estepes cerealíferas da Ucrânia não passam de agricultura de subsistência! Até porque, como escrevia Natália Correia: "Ó subalimentados do sonho! a poesia é para comer."

Que isto seja evidente para todos os que nos seguem fora de Portugal e que poderão votar amanhã no festival da Eurovisão!

quarta-feira, 3 de maio de 2017

O encanto das plantas autóctones na revista Jardins


Se há mês em que não qualquer dúvida sobre o potencial ornamental da nossa flora autóctone, esse é o mês de Maio! Basta sair dos aglomerados urbanos, evitar as extensões de monocultura florestal, e deixarmos-nos inspirar pelas paisagens desenhadas pela Natureza.

E em boa altura a Revista Jardins, com quem tivemos o privilégio de colaborar na edição de Outubro de 2006, colocou agora On-line o artigo que escrevemos a propósito do potencial da nossa flora nos jardins mas também noutras vertentes.

Para quem não teve oportunidade de ler a Revista de Outubro AQUI podem encontrar uma síntese do mesmo! Se servir de inspiração a algum leitor para melhor usufruir o mês de Maio... Perfeito!

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Dia das Maias


O 1º de Maio é em muitas localidades do centro e sul de Portugal Dia das Maias. Cumprido a preceito, implicaria que ontem tivesse sido colhido um ramo para pendurar antes da meia-noite na porta da casa, garantindo por tradição uma estação de fartura e que o mau-olhado ficasse à porta.

Que Maio é mês de exuberância, é fácil de concluir em qualquer passeio que se faça para fora dos aglomerados urbanos. O que já não é tão claro são as origens mais profundas desta tradição e do seu significado.

Para os Gregos e Romanos Maya era a Deusa da fecundidade e, como tal, da Primavera, tendo-lhe sido consagrado o quinto mês do ano, o que explica, como partilhamos AQUI, que Maio seja ainda hoje o mês consagrado às mulheres. Porém a celebração do início da estação da abundância não foi um exclusivo greco-romano e é claro que outros povos, anteriores ou seus contemporâneos, tinham neste dia uma data central.

No nosso caso e à falta de evidências, o facto de ser celebrado sobretudo nas regiões centro e norte, leva-nos a crer que a tradição das Maias tenha raiz seja céltica. Um povo que cá chegou no I milénio a.c e que se disseminou pela maior parte do nosso território, embora marcando de forma mais significativa o noroeste peninsular, onde hoje as tradições celtas são alvo de uma revitalização assumida.

Que sendo pagãos e obviamente menos organizados que os exércitos romanos tinham a "ciência" de tal forma avançada, que baseados nos ciclos que observavam na Natureza, era para eles óbvio que no nosso hemisfério, o ano começava no fim de Outubro e só existiam duas estações: Um período escuro e invernal que se iniciava aí e um Verão claro de abundância que se assinalava a 1 de Maio, com um festival maior, por ser a altura de maior enegia da estação, designado de Beltane.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Um dia vou semear...

Germinação de cravos-vermelhos, cultivar, Dianthus caryophyllus

UM DIA... Ah um dia, vou fazê-lo...., mas,   e se não dá certo,... é melhor esperar mais um bocadinho...tem de se ter calma....e paciência, isto é mesmo assim não é.... e se se morre!?! ....ahhhhrrrr e os mortos o que é que iriam pensar..também não se sabe bem como se se faz... no fundo até estamos bem assim...temos de saber dar o valor ao que temos..., há mesmo muito pior, Olha os outros....porque é que não te distrais, ollha, vê uma série! MAS UM DIA....ok, daqui  a um ano pensamos nisso, que agora não está bom tempo...será mesmo preciso!?!...devagar que isso acaba por acontecer pelo acaso, ou aparece alguém de certeza que o faz sem darmos por ela... às tantas nem nem vai ser preciso..MAS UM DIA.... UM DIA......UM DIA vou semear....AQUELE FOI O DIA! Há 43 anos! Obrigado!



terça-feira, 18 de abril de 2017

Um dia vou oferecer cravos...


....o próximo dia 25 De Abril será o dia!

E para muitos de nós essa é uma extraordinária tradição que muito simbolicamente repetimos há 43 anos, desde 1974.

Um dia de tal forma fundador, que assinalámos em 20152016. mas que este ano comemoraremos com uma edição especial de sementes de cravos vermelhos.

Apesar de existirem belíssimas espécies do género Dianthus na nossa flora autóctone, são 9 de acordo com o portal FLORA-ON, da Sociedade Portuguesa de Botânica, os cravos  vermelhos que ficaram indissociavelmente ligados a Portugal são de um cultivar, isto é de uma espécie que outrora  existia na Natureza e que ao longo de dezenas de gerações foi sendo domesticada e apurada para produzir flores mais exuberantes e mais perfumadas.

Por regra nós preferimos as singelas flores silvestres nativas, todavia não sendo nós ortodoxos, tomamos como nossas as espécies que se fizeram silvestres e ganharam direitos de cidadania (os acantos, os ciprestes, as olaias ou as capuchinhas são alguns exemplos).  O que vale também para os cultivares, sendo que este, muito em particular, entrou nos genes da nossa identidade. Daí que seja com muita satisfação que este ano nos associamos ao tributo que todos devemos à nossa revolução de 1974.

Por razões incompreensíveis alguns de nós vêm no cravo uma flor partidarizada. Mas não é, nem pode ser visto dessa maneira! É altamente politizada sim, mas ao nível do melhor que podemos almejar. Um símbolo de um acontecimento maior da nossa Historia que de forma única  nos conduziu sem mortos nem guerra à Democracia e à Liberdade: um valor, senão "O valor", fundamental da nossa sociedade.

Um símbolo que por mero acaso  tem a génese num "banal" acto de generosidade da senhora Celeste Caeiro que naquele dia, não tendo mais nada para oferecer aos soldados que se movimentavam nas ruas, deu o que tinha a um deles: um enorme ramo de cravos, que os soldados prontamente distribuíram e colocaram nos canos das espingardas.

Há actos singelos de enormes repercussões! E este é um bom exemplo de como até os maiores eventos podem ter origem  em nano-atitudes. microscópicas, desinteressadas e sem qualquer pretensão de perdurarem para a eternidade. Teria  sido a nossa revolução diferente se Celeste Caeiro não tivesse oferecido cravos naquele dia? Talvez não, porque somos um povo de paz, mas graças a ela e para o mundo inteiro, a flor de Zeus (Dianthus em latim quer dizer isso mesmo) juntou-se ao já nosso já imenso património colectivo e é hoje reconhecido como um símbolo de Portugal!

À senhora Celeste Caeiro, hoje com 83 anos, que há 43 disse que um cravo se oferecia a qualquer pessoa, o nosso obrigado e sincera homenagem!


Nota Final - A nossa edição especial de sementes de cravos vermelhos estará à venda a partir de hoje exclusivamente nas lojas da Vida Portuguesa e da Bairro Arte. Não estará disponível na nossa loja On-line. O 25 de Abril fez-se nas ruas e é nelas que é obrigatório celebrar o dia em que o Povo saiu à rua e pôs termo a uma ditadura de 48 anos. Para que pelo Chiado, Cedofeita, Clérigos, Bairro Alto, Intendente, Alcântara, Cais-do-Sodré possamos voltar a sentir a brisa da liberdade e fraternidade como naquele dia, são os nossos votos!



domingo, 16 de abril de 2017

Sugestões de jardinagem V


Com a Páscoa a chegar ao fim não queríamos terminá-la sem partilhar mais uma sugestão de jardinagem inspirada por uma das paisagens nossas preferidas!

É um facto que esta é uma sugestão que não está ao alcance de todos, pois será necessário algum espaço, mas se houver alguém que podendo fique com vontade de o fazer depois deste nosso post, já valerá a pena!

As Olaias, que para muitos é apenas nome de bairro de Lisboa, são uma árvore frequentemente utilizada em espaços públicos. Poderemos não a conhecer pelo nome, mas todos nós já passámos certamente por elas e apreciámos,nos princípios da Primavera,  a sua abundante floração cor-de rosa que é prévia ao aparecimento das folhas. 

Os Freixos, outra árvore pela qual passamos com frequência sem conseguir chamá-la pelo nome, povoa as margens de rios e ribeiras de todo o nosso país e é provavelmente a espécie ripícola (para quem não sabe, ripícola refere-se ao que habita nas margens dos rios) de maior porte que temos e as suas qualidades e currículo deveriam dispensar aqui quaisquer apresentações. 

Ambas as espécies são frequentes, os freixos mais em linhas de água e as olaias mais em espaços urbanos, mas quase raramente as vimos juntas. E é juntando a luminosidade do verde das primeiras folhas dos Freixos com a exuberância dos rosas das Olaias que ambas se transcendem proporcionando magníficos efeitos estéticos.

Dissemos raramente, porque por vezes o "acaso" proporciona-nos o encontro das duas espécies. E o médio Tejo, de Abrantes a Santarém, Entroncamento, Torres Novas e arredores estão cheios de galerias ripicolas de Freixos, salgueiros, amieiros e choupos pontuados aqui e ali por Olaias.

Sabendo nós que a Olaia nem é uma espécie autóctone - embora por cá esteja há muitos séculos, possivelmente trazida pelos Romanos do médio-oriente, não deixa de ser curioso tentar perceber quem as ali pôs e com que intenção. Não lhe são conhecidas mais-valias económicas e pela madeira não será, pois é de crescimento lento. Resta-nos a suposição de que foi mesmo pelas necessidades imperiosas de beleza, que até os simples têm, queos agricultores desta região fizeram questão de as juntar aos freixos que bordavam as linhas de água.

Salvo opinião em contrário as Olaias, árvores de médio porte da família das leguminosas denominadas  Cercis siliquastrum, não são invasivas e requerem pouco ou nenhum cuidado. Têm um crescimento lento e preferem solos húmidos, embora também sobrevivam em solos mais secos.

São pois o que poderíamos chamar de "árvores exóticas que ganharam direito de cidadania" tantos são os séculos que por cá andam!

Por fim e porque estamos na Páscoa, uma referência que não é de somenos importância. As Olaias são igualmente conhecidas como sendo a árvore-da-judeia ou árvore-de Judas, por se acreditar que foi numa delas que Judas Iscariotes pôs termo à sua vida depois de se seduzir por 30 moedas prata. A ser verdade, fica evidente a compaixão de quem lhe preservou o nome. Razão talvez pela qual as Olaias sejam ainda e também vulgarmente, conhecidas por.... Árvores-do-Amor!

Para terminar e para desfazer quaisquer duvidas sobre os méritos desta nossa sugestão, um link para um artigo que a Teresa Chambel escreveu há quatro anos no seu blogue Um Jardim para cuidar:AQUI.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Sigmetum - O viveiro das plantas autóctones


Quem nos acompanha desde o início do nosso projecto sabe da nossa ligação e colaboração com a Sigmetum, pelo que o que vamos dizer a seguir não é nem novo nem estranho. Mas para os muitos que só mais recentemente nos conhecem, gostaríamos de partilhar o que para nós é um viveiro de plantas, como todos deveriam ser!

É um facto que o nosso país tem mais garden-centers que revendem plantas importadas do que propriamente viveiros com produção nacional, mas daí a pensar que nada se faz e que o que é bom só lá fora vai um passo demasiado largo. A verdade é que também temos projectos de topo ao nível do que melhor se faz no mundo e a Sigmetum é um desses projectos.

Localizada no perímetro da tapada da Ajuda - ISA - Instituto Superior de Agronomia, a Sigmetum é a único empresa que existe no nosso país  que está especializada em plantas autóctones. Direccionada para responder às necessidades de projectos de arquitectura paisagista e de renaturalização, a sua equipa tem apostado sistematicamente na produção de espécies que atá aqui era impossível encontrar no mercado. 

E, para nossa grande satisfação, algumas dessas espécies estão a ser produzidas a partir de sementes por nós fornecidas. Os Rosmaninho-verde (Lavandula viridis), os Samoucos (Myrica faya), os Alfinetes (Centhrantus ruber)  ou as euforbias (Euphorbia segetalis) são algumas delas.

Uma boa parte da razão de ser do nosso projecto é estimular qualquer pessoa a germinar as suas próprias sementes. Mas para todos aqueles que, por uma razão ou por outra, ainda o não pretendem fazer, é hoje perfeitamente possível utilizar plantas nativas já prontas a ir para a terra.

A Sigmetum está aberta ao público em geral todas as quartas-feiras de manhã e visitar o seu viveiro é no mínimo um excelente passeio. A começar pelo facto de se situar num dos espaços mais incríveis e desconhecidos de Lisboa - uma tapada com mais de 100 hectares, em pelo centro da cidade, que se desenvolve em anfiteatro com vistas para o Tejo. Onde, além de bosques e campos de cultivo se podem ver garranos e o magnifico centro de exposições do rei D. Carlos, só para dar alguns exemplos das muitas coisas boas que por lá se podem observar!

Nota - Para entrar de carro no espaço do ISA - Instituto Superior de Agronomia/Tapada da Ajuda,  o que se recomenda dada a dimensão, paga-se 1,5 Euros, um valor simbólico, que a equipa da Sigmetum deduz depois no valor das compras.